Nove mil crianças morreram durante décadas em lares para mães solteiras na Irlanda

15/01/2021

Santuário erguido em memória das mais de 800 crianças que teriam sido sepultadas no local de um antigo centro para mães solteiras regido por freiras, em foto de 9 de junho de 2014, em Tuam, oeste da Irlanda – AFP/Arquivos

Umas 9.000 crianças morreram durante décadas na Irlanda em lares para mães solteiras, onde elas eram separadas dos filhos, revelou o relatório de uma comissão investigadora, publicado nesta terça-feira (12) em Dublin.

O primeiro-ministro, Micheál Martin, anunciou que se desculpará em nome do Estado irlandês sobre este assunto, depois que a Comissão Irlandesa de Investigação sobre Lares Materno-Infantis encontrou níveis “inquietantes” de mortalidade infantil nestas instituições, que funcionaram no país fortemente católico até 1998.

“É difícil imaginar a magnitude da tragédia e a dor que se esconde por trás da cifra de 9.000 crianças e bebês” mortos, afirmou o ministro irlandês da Infância, Roderic O’Gorman.

Dirigidos por freiras, em colaboração com o Estado irlandês, estes lares acolhiam adolescentes e jovens rejeitadas pelas famílias.

As crianças que nasciam ali, consideradas ilegítimas, frequentemente eram separadas das mães e dadas em adoção, rompendo os laços com suas famílias biológicas.

A comissão foi criada para lançar luz sobre o alto nível de mortalidade infantil registrado nestas instituições entre 1922 e 1998.

O relatório descreve um “capítulo obscuro e vergonhoso da história recente da Irlanda”, afirmou o premier, destacando a “cultura misógina” do país durante “várias décadas”.

Particularmente, Martin destacou “a grave e sistemática discriminação contra as mulheres, especialmente às que deram à luz fora do casamento” neste país profundamente católico.

“Tínhamos uma atitude completamente distorcida com relação à sexualidade e à intimidade”, uma “disfunção” pela qual “as jovens mães e seus filhos e filhas” nestas instituições “se viram obrigados a pagar um preço terrível”, afirmou.

A cifra de 9.000 mortes corresponde a 15% das 57.000 crianças que passaram por estes estabelecimentos durante os 76 anos examinados pela comissão investigadora.

“Toda a sociedade foi cúmplice”, disse o chefe de governo.

A investigação foi iniciada em 2015 com base no trabalho da historiadora Catherine Corless.

Ela afirmou que quase 800 crianças nascidas em uma destas instituições, o Lar St Mary das Irmãs do Bom Socorro, em Tuam, oeste do país, foram enterradas em uma vala comum entre 1925 e 1961.

Fonte.: Revista Isto É


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